Ele calçava seus sapatos sentado sobre a ponta da cama, a camisa desabotoada jogada ao corpo. Enquanto gota a gota o café fresco escorria na velha cafeteira da cozinha. Ao fundo só conseguia ouvir o rádio da vizinha que fazia faxina ao som do acaso da emissora local. Com as costas coladas entre a parede e a cabeceira da cama eu continha-me ao vê-lo se arrumar.
Com a necessidade de quebrar aquele pesado silêncio lhe disse:
_ Não vai pelo menos esperar o café?
Abotoando a camisa ele me respondeu olhando para a casa do próximo botão.
_ Tomo por ai. – passando o terceiro botão por sua respectiva casa.
Gota a gota o café estava passado e esse gesto me soava como uma estúpida caridade, nem ao menos iria tomá-lo comigo, mas o havia colocado para passar. Terminou por abotoar todos os botões e levantou-se e pondo o pé sobre a cadeira amarrou seus cadarços um pé por sua vez, começou pelo esquerdo, nunca fora de superstições. Em seguida dobrou as cobertas bagunçadas aos pés de minha cama e as colocou uma em cima da outra sobre o mesmo lugar onde até então estava sentado.
Enquanto a vizinha regava suas plantas no quintal quase gritando junto ao rádio “Ela partiiiiiiiiiiu, partiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu”. Eu pensava, ele partiu, mas ele ainda estava diante de mim. Então saiu do quarto e nem ao menos parou frente ao espelho, e eu permanecia imóvel e inseparável da parede que me empurrava. Eu tentava ignorar a música, minha cara era fúnebre e insone. Levantei-me e o segui silenciosamente até a sala de entrada, ele recolhia suas chaves da mesa e notou-me atrás dele. Calmamente virou-se para mim e sussurrou seco:
_ Tchau, cuide-se.-dando-me um beijo de misericórdia no rosto e destrancou a trava da porta.
Inutilmente atordoada insisti mais uma vez.
_ Pelo menos toma uma xícara de café.- as lágrimas tentavam me quebrar a seriedade.
_ Não estou afim.
_ Mas você acabou de dizer que tomava por ai.
_ É.
Não sabia o que dizer, não podia deixá-lo partir.
_ Então porque passou o café?- foi o que me caiu da boca já tremula com a esperança de que ele ficasse um pouco mais.
_ Porque sim.- e abriu a porta.
Na inútil e ridícula tentativa de fazê-lo ficar não sabia quais as palavras escolher para expressar tudo o que sentia, a repulsa e ódio por ele que misturavam-se a necessidade de me jogar sobre seus pés e implorar com todas as minhas forças para que ele ficasse. E numa ridícula síntese suspirei destruindo meu orgulho e contendo o choro.
_ Mas eu te amo!
_ Eu sei. –ele disse e saiu pela porta fechando-a atrás de si.
_ Cuide-se.- consegui ouvir pelo vão da porta que se fechava.
Permaneci estática de frente a porta com a esperança que ele ainda pudesse voltar, e a vizinha cantava “amanha há de seeeeeeer ouutro dia” enquanto eu imaginava as costas dele saindo pelo portão da frente até sumir pelas ladeiras de paralelepípedo do bairro.
Filho da puta!
3 comentários:
Amores ridiculos criados pela rotina dos que fingem amar. Porquê não um homem nessa situação? rs
Pq não né? vou te mostrar um homem desses muito mais tenso e ridiculo.
Amei Guiii!
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