------------- meus olhos estagnaram-se no espaço daquele instante em que aquele pavor invadia-me as pálpebras sem cerimônias, proporcionando-me um estranho prazer. E meu prazer envergonhava-se por sua incredulidade. E em uma fração de mim o mundo piscou para meus olhos. Antes que pudesse absorver o que acabava de ver meu prazer concretizava-se no tempo até se estagnar na morte do instante me deixando apenas o inexplicável gosto de seu pudor.
Do outro lado da rua uma criança expressava-se melhor do que eu apontando para o tapete de entranhas do rato atropelado sobre o asfalto. Estático tentava parar de tentar não olhar e me entreguei a mórbida curiosidade de olhar para o corpo estraçalhado do animal.
E na garganta me subia um amargo gosto, mas não era de bílis, nem muito menos de nojo, era o desejo que se alimentava por meus olhos. E me mantinha ali a observar aquela tragédia sem nenhuma culpa, era apenas um rato, o que também inflava no motorista do Chevette vinho que agora deveria estar entre a prefeitura e os escombros do antigo mercado um retórico perdão.
Eram aproximadamente dez e meia da manhã e eu continuava chocado pelo indiferente atropelamento da vida. Do outro lado da rua a criança continuava a espernear e gritava algo referindo-se ao corpo jogado em meio a rua, uma mulher de cabelos castanhos e de fisionomia cansada puxava a criança pela mão aos trancozinhos “Vem filho, ou vamos nos atrasar, é só um rato.” E a criança a ignorava e gritava cada vez com mais vida quase rompendo sua dependência da mãe, “Caraca você viu aquilo.” Ele soltou com exctasy olhando para a mãe, que já estava impaciente. Enquanto eu ainda observava as entranhas expostas sobre o asfalto e recordei-me de quando era criança e nessa mesma avenida vi as rodas de um carro que já não me lembro mais qual era, arrancar a vida de um pobre cãozinho. Lembro com um simples fechar de olhos cada mínimo e ridículo detalhe daquele dia, a roda, o cão tendo sua massa comprimida por uma mágica cruel que fez com que ele se achatasse e voltasse a seu volume em questão de segundos, o sangue escorrendo, saindo não sei mais por onde pois as formas já eram indefinidas e mesclas, mas era um cão. Segundos após o carro indefinido rabiscava o asfalto com o negro de seus pneus e a eficiência de seus freios. E eu, estático como a criança do outro lado da rua olhava aquela casualidade do horror, e as pressas o motorista indefinido do carro desconhecido já se debruçava com culpa sobre o corpo do cachorrinho e por uma vaga esperança ou por um leve desencargo de consciência pegava o cão quase morto e saia em direção de amparos para o já morto animal.
Durante todo esse tempo mantive-me imóvel tentava colocar em palavras todas aquelas imagens na minha ingênua cabeça de garoto, o animal tinha morrido, a insignificância com que a morte leva a vida, assim como do pobre rato, porém daquela vez o prazer não existiu, e agora tento me justificar pela indiferença que senti pelo rato.
Com estranheza fiz o sinal da cruz sobre o peito me redimindo da minha moralidade e segui e o garoto ia sumindo pela esquina com sua ingênua revelação, a única vez em que viu um delicioso sabor na morte, mas de tão inocente nunca soube que sentiu o que sentiu.
Enquanto sua mãe dizia,“Oras, é apenas um rato.” E o puxava pelas calçadas esburacadas da cidade.
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