18 de jan. de 2011

Amores ridículos.

Ele calçava seus sapatos sentado sobre a ponta da cama, a camisa desabotoada jogada ao corpo. Enquanto gota a gota o café fresco escorria na velha cafeteira da cozinha. Ao fundo só conseguia ouvir o rádio da vizinha que fazia faxina ao som do acaso da emissora local. Com as costas coladas entre a parede e a cabeceira da cama eu continha-me ao vê-lo se arrumar.

Com a necessidade de quebrar aquele pesado silêncio lhe disse:
_ Não vai pelo menos esperar o café?

Abotoando a camisa ele me respondeu olhando para a casa do próximo botão.
_ Tomo por ai. – passando o terceiro botão por sua respectiva casa.

Gota a gota o café estava passado e esse gesto me soava como uma estúpida caridade, nem ao menos iria tomá-lo comigo, mas o havia colocado para passar. Terminou por abotoar todos os botões e levantou-se e pondo o pé sobre a cadeira amarrou seus cadarços um pé por sua vez, começou pelo esquerdo, nunca fora de superstições. Em seguida dobrou as cobertas bagunçadas aos pés de minha cama e as colocou uma em cima da outra sobre o mesmo lugar onde até então estava sentado.

Enquanto a vizinha regava suas plantas no quintal quase gritando junto ao rádio “Ela partiiiiiiiiiiu, partiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu”. Eu pensava, ele partiu, mas ele ainda estava diante de mim. Então saiu do quarto e nem ao menos parou frente ao espelho, e eu permanecia imóvel e inseparável da parede que me empurrava. Eu tentava ignorar a música, minha cara era fúnebre e insone. Levantei-me e o segui silenciosamente até a sala de entrada, ele recolhia suas chaves da mesa e notou-me atrás dele. Calmamente virou-se para mim e sussurrou seco:
_ Tchau, cuide-se.-dando-me um beijo de misericórdia no rosto e destrancou a trava da porta.

Inutilmente atordoada insisti mais uma vez.
_ Pelo menos toma uma xícara de café.- as lágrimas tentavam me quebrar a seriedade.
_ Não estou afim.
_ Mas você acabou de dizer que tomava por ai.
_ É.

Não sabia o que dizer, não podia deixá-lo partir.
_ Então porque passou o café?- foi o que me caiu da boca já tremula com a esperança de que ele ficasse um pouco mais.
_ Porque sim.- e abriu a porta.

Na inútil e ridícula tentativa de fazê-lo ficar não sabia quais as palavras escolher para expressar tudo o que sentia, a repulsa e ódio por ele que misturavam-se a necessidade de me jogar sobre seus pés e implorar com todas as minhas forças para que ele ficasse. E numa ridícula síntese suspirei destruindo meu orgulho e contendo o choro.
_ Mas eu te amo!
_ Eu sei. –ele disse e saiu pela porta fechando-a atrás de si.
_ Cuide-se.- consegui ouvir pelo vão da porta que se fechava.

Permaneci estática de frente a porta com a esperança que ele ainda pudesse voltar, e a vizinha cantava “amanha há de seeeeeeer ouutro dia” enquanto eu imaginava as costas dele saindo pelo portão da frente até sumir pelas ladeiras de paralelepípedo do bairro.

Filho da puta!

3 comentários:

Danielly Teles disse...

Amores ridiculos criados pela rotina dos que fingem amar. Porquê não um homem nessa situação? rs

Meursault disse...

Pq não né? vou te mostrar um homem desses muito mais tenso e ridiculo.

Franga disse...

Amei Guiii!