15 de jan. de 2011

Feliz Aniversário!

Sento-me ao lado da mesa de madeira e com um velho saca-rolhas dou liberdade ao vinho, levanto-me e vou em direção ao armário, lhe invado em busca de taças para o brinde. Com os olhos acarinho cada uma delas e por descuido alguns dos pratos, escolho uma delas sem motivo, aparentemente todas são iguais exceto pelas imperceptíveis deformidades no vidro, que sempre imagino nascido em alguma orla de praia de maneira artesanal, um senhor de barbas embranquecidas o rosto queimado pelo sol e sua singela pá, ambos a recolherem grãos e mais grãos. Devolvo as taças a sua privacidade e torno a sentar-me, sirvo-me do vinho, os teus tragos deixo na garrafa, olhando para o teto como se algum tipo de proteção pudesse cair sobre nós brindo ao teu aniversário e faço minha taça cantar na garrafa.

E bebo do vinho, bebo tudo de um gole tentando inundar tudo que há por dentro do meu corpo camuflado de pele e pêlos. Hoje o céu desaguou de tal maneira que poderia ver peixes voando, entre eles haveria de haver um dourado, ou talvez não.

Completo minha taça e lhe deixo um gole, dessa vez dou um leve gole, uma leve adocicada na boca e calor as entranhas, como um padre, daqueles que você tanto detesta e ridiculariza, faço-lhe mais um brinde por tais lembranças, seu ceticismo religioso me esculpe um árduo sorriso por lembrar sua curiosidade em astrologia. E me faz imaginar-te todas as manhãs a escovar os dentes do espelho sempre a espera, escorpião, sagitário e pára com a escova entre os dentes para escutar as ondas do radio ecoarem e lhe dizerem como será o dia. E sempre questionando-se ao fim do dia que tudo ocorreu como o previsto ou se tudo foi forjado de maneira inconsciente nas entranhas do universo só porque você o tentou modelar, para contrariar o horóscopo ou para fazê-lo cumprir-se. Vestiste a camisa vermelha, a cor do dia, fosse um bom dia, o vermelho era da sorte ou a camisa?

Pinto mais uma vez os lábios de vinho e penso nessa ironia de crenças, e imagino que deves ter algum hábito nascido dessas minúcias supersticiosas, assim como se abalou ao ver morrendo o amor no corpo de um peixe boiando desfalecido na prisão invisível de um aquário. E ai ambos imaginativamente amaldiçoamos todo nosso futuro, e toda vez que ofensas trocávamos com ares de amor e guerra, pensávamos no peixe como um sinal.

Engraçado que nunca criei sinais de prosperidade em nada, acho que nunca criamos( digo a todos nós), são sempre sinais de desgraça e temor , como profecias.

Mas as coisas mudam.

Capricórnio, se tivesses nascido no Egito com a lua em outros céus, onde eu nem existiria, tu teria a pele grossa e escurecida pelo sol e talvez andasse submissa ao lado de seu marido pelas ruas do Cairo, mordendo com delicadezas as frutas do mercado de rua, se suicidaria ao manter-se submissa a um homem bruto e grosso ou matá-lo-ia como Cleópatra aos que a desagradava e talvez na tua fuga encantar-se-ia com a imensidão dos elefantes persas que invadiam a cidade.

Com os olhos bem delineados e negros, cílios ouriçados e belos que contrastam com o claro castanho dos teus doces olhos, que no reflexo dos teus brincos seriam refletidos em algum lugar esquecido do tempo ao delineá-los com um improviso qualquer, pois no Egito usaria belos brincos que fizestes com as próprias mãos e que lhe dariam ar de mulher madura e vigorosa.

E encantada por gracioso paquiderme irias para a Índia e lá aprenderia que Ganesha nem sempre Ganesha foi, e séculos após, como uma herança espiritual iria reproduzir essa história para teus curiosos filhos elefantes. Que a ouviriam mais ou menos assim, Da lama foi forjado um boneco pelas mãos de Parvati,Quem é Parvati, A mulher de Shiva e filha de Brama, a ele ela chamou de Ganesha, Ele já tinha cabeça de elefante, Inda não, e a Ganesha foi dito que tomasse conta da porta para que ninguém a visse a banhar, então Ganesha a porta guardou até que Shiva chegasse e dissesse que gostaria de ver Parvati, Shiva é pai de Ganesha, Sim e não, ele nasceu do barro lembra, E ai, E ai que Ganesha não deixou que Shiva entrasse, deixe-me passar, ninguém por aqui há de entrar, saia ou lhe arranco a cabeça, pois que venha a tentar, e no vento o tridente de Shiva cantou e o boneco sem cabeça ficou, então Parvati se enfureceu com Shiva e lhe disse , devolva a vida ao meu filho, mas como ó mulher, não me interessa o karma é seu, ó Brama o que hei de fazer, vá de armas à mata e o primeiro ser vivo que ver dá-lhe a cabeça ao filho teu ,e entre folhas e arbustos que rodeavam uma clareira o desgraçado deus avistou um moribundo e triste elefante, O que é moribundo, Muito doente, e o deus disse tu serás o filho meu, assim que o elefante morreu com aquela que cabeça Ganesha renasceu.

Mas como num poema de Drummond imagino essa e nossa história rodar por toda a cronologia da terra, do vasto império romano a essa nossa excessiva modernidade que só existe nos cinemas B.

Aliás, lá não serias capricórnio, mas sim filha de Anúbis que andaria sempre com a sombra da morte atrás de ti e a ela sorriria todos os dias lhe pedindo proteção e beijando sua pequena ônix dependurada no pescoço .

Bem filha de Anúbis, agora és legalmente livre, sem marido e o destino a mercê de tua lamina, mas não esqueça que nossa liberdade nunca é plena, tenhas o equilíbrio entre leão e a raposa como Maquiavel sugeriria há uns quinze séculos após a tua morte. Entorno mais um gole de vinho e penso em lhe escrever algo, mas o excesso de significado das minhas palavras me fazem calar e calo a boca na taça e as lembranças no vinho.

Encho a taça uma última vez e novamente lhe saúdo “Feliz Aniversário” e lhe desejo todas as coisas de bem, mas detenho-me antes que as imagine demais e essa doce melancolia torne-se triste e acabe com teu aniversário. Viro a taça de uma vez, mas ainda me é insuficiente, acabo por calar-me por completo nos lábios da garrafa e misturar o teu vinho junto a minha existência.

E às lembranças à boa fortuna que te acompanhem pelas árduas tempestades do Egito ou virtuosas estradas de terra da América Latina e por toda a eletroatividade que faz o mundo funcionar, que haja sempre um pulso elétrico a te resguardar por entre os carbonos do mundo.

Ou dê um nome de força qualquer.
Na boca de vidro roubo teu tom de batom que nunca usastes e vou finalmente dormir, fecho os olhos.
E vou pra onde o mundo se torna sólido.
E onírico demais pra ser mentira...

Com um carinho singular.

Um comentário:

Danielly Teles disse...

Eu sem bem pra quem é esse texto. Na verdade esse foi o que eu mais gostei, tem uma beleza que nem sei de onde vem. Parabéns msm msm, Gui.