Nascemos, só nos há o tempo,
então brincamos, a fantasiá-lo.
Escovamos os dentes, amarramos os cadarços,
e lá vai ele se esvaindo.
Crescemos ao acompanhá-lo,despercebidos,
um amigo imaginário.
Sempre a nos observar, vêm se os primeiros tropeços,
os primeiros insights, os primeiros amores, para o sublimar.
Deixando sempre sua marca.
Ao nos machucar.
As lembranças, seus presentes de que esteve ali.
O primeiro relógio a nos apressar.
Uma foto, o recortamos, para depois o guardar,
numa pequena caixa, com outras.
Eternizando-os, num presente surreal.
E crescem as crianças, morrem os animaizinhos.
Perde-se os amigos, resta a melancolia.
Até que um dia ele nos roube as forças,nos tire a visão.
Não usamos mais o relógio, não o vemos mais.
Mas ele continua a nos observar.
E do nada, acaba-se.
Morremos, e ele
segue a passear.
Um comentário:
Devagar,
o tempo transforma tudo em tempo.
O ódio transforma-se em tempo.
O amor transforma-se em tempo.
A dor transforma-se em tempo.
Os assuntos que julgamos mais
profundos, mais impossíveis,
mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
Mas, por si só, o tempo não é nada,
a idade não é nada, a eternidade não existe.
(José Luís Peixoto)
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