Ela tem aspirações esquerdistas, é claro, lê Simone e vê filmes do Almodóvar. Ele com quase os mesmos ideais, vomita Sartre em rodas de bar, e renega os blockbusteres, que são contra suas aspirações, óbvio.
Ela não usa roupas de grife, pois vêm de fábricas com regimes quase escravistas na china ou em qualquer outro lugar carente do mundo que ela argumenta proteger, só em idéias, mas protege. Porém desfila por ai com sua nova melissa vermelha e reluzente, que claro, remete à pobre Doroty e seu amigo totó. Ele não usa tênis de couro por amor aos animais, que merecem respeito, e critica seus amigos capitalistas com Nike nos pés “a Nike é o órgão sexual de todo capitalista, é o lixo de toda a America”. Mas nunca abandona seus pares e pares de “all star”.
E de repente, como num romance underground Cult que eles revisitaram, essas duas almas inquietas encontram-se.
Trocam olhares durante toda a noite, ou não, e simplesmente se pegam durante uma orgia niilista regada por bebidas e drogas. Mas algo nele chama a atenção, seu papo cabeça, inteligência é afrodisíaco. Para não ficar por baixo ela cita Rimbaud, e ele rebate com algo de Neruda, mas então percebe que pode parecer muito meloso, e não é essa a impressão que ele quer passar, mesmo que o seja. Pensa com exatidão, e de pronto cospe algo eroticamente bonito de Drummond. Estão fisgados, sentam-se em um cantinho da festa e conversam por horas, descobrem suas aspirações, ele associa as melissas dela àquela menina do filme que segue a estrada dos tijolos amarelos, e ela impressionada sorri com seu novo affair. E fechando a noite beijam-se, ausentando-se de todas aquelas efemeridades. Desse encontro surgem outros tantos, ela gosta dele, e ele igualmente dela. Mas cumprimentam-se sempre com beijo no rosto, amistosamente. E com o tempo a saudade começa a bater na ausência do outro, só que ele não liga, não quer parecer desesperado, muito menos apaixonado e tem que acalantar seu orgulho e ego ao lado do telefone, sozinho, segurando seu celular indicando o número dela. O mais engraçado, é que ela também. E a cada encontro surge a dúvida, talvez até uma re-conquista, mas muitas vezes sentimentos escondidos, afinal nenhum deles é nada do outro. É uma era de amor livre, é normal se ter outros parceiros, ambos sabem disso, e fazem questão de deixar bem claro um ao outro, mesmo que no fundo isso passe a doer cada vez mais, porém nenhum deles se abre, não podem se expor. Querem acabar com as instituições sociais, casamento, é coisa do passado, isso todos sabem, e parceiros fixos é algo antiquado. Ah morte para as convenções sociais, eles se gostarão sendo exclusivos ou não, como muitos outros casais. E mais um tempo se passa, mas agora os cumprimentos são com calorosos selinhos, isso pelo menos quando estão sozinhos. Se ele encontra-se com alguns amigos no recinto ela se acanha de cumprimentá-lo de forma carinhosa, talvez os amigos dele não saibam. Entretanto eles sabem, e ele fica inquieto com a falta de calor no encontro, mas nada lhe diz. Saem mais umas vezes, e nutrem esse gostar mutuo e vital, num certo dia ela o encontra numa festa qualquer, e dessa vez quem não é caloroso é ele por motivo qualquer. E no banheiro festivamente vomitado ela chora, ele deve estar com outra, ou alguma potencial paquera, ou não me quer mais, será que um dia realmente quis? De ego ferido, cabeça erguida e coração partido ela retorna pra pista. Preenche seu vazio dele por quatro doses violentas de tequila que lhe dá forças para simplesmente tratá-lo como um conhecido qualquer. Ele sente uma estranheza nela e a chama para conversar, imagina que algo está acontecendo, mas é tratado de maneira tão indiferente, que se enraivece e a deixa só. De lá saí com dúvidas e um estranho vazio, e num boteco qualquer longe dali se embriaga.
Ao chegar a casa sem um de seus sapatinhos vermelhos, e, ainda alcoolizada, deita-se, e se arrepende, não deveria ter o tratado de tal maneira, não possui o direito de lhe cobrar nada, não são namorados, são livres, livres! E resolve ligar pra desculpar-se, mas antes que pudesse de fato dizer algo, de alguma maneira estranha, ele acaba vingativamente lhe dizendo que não se preocupa-se, afinal não são namorados e que ela poderia fazer o que quiser, inclusive enroscar-se com outros caras. E fatidicamente ela acredita que ele se camufle nesse argumento, para não lhe dizer que já estava se relacionando com outras. E orgulhosa simplesmente reponde, que concorda, despede-se sucintamente e desliga o telefone. Ela não mais o procura.
Com o passar dos dias ele lhe manda mensagens, mas nunca é respondido. E após algumas tentativas, desiste de procurá-la.
E em qualquer lugar da cidade ela confidencia tristemente para as amigas de como perdeu um grande amor, daqueles de cinema francês.
Enquanto ele numa mesa de bar esquecida volta a vomitar todo seu existencialismo sartreano e resmunga, de uma forma esperançosa que se de fato a cativou ela há de voltar.
Isso nunca acontece, os dois são orgulhosos demais, cultos demais, e fatidicamente, modernos demais!
Um comentário:
esse escrito me dá desespero, Gui.
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