4 de set. de 2010

Pedras

É como andar em direção a uma cachoeira, sobre as pedras molhadas e musguentas.
São tão escorregadias, e geladas, cuidado com essa coisa verde, se você pisar ai vai escorregar com certeza. O caminho não é árduo, nem íngreme, mas rola aquele medinho bobo, você com seus pés frágeis, descalços sobre uma das pedras, com as sandálias enganchadas nos dedos da mão direita. Você anda seu caminho com cuidado, escolhe cautelosamente em qual delas será lançado seu próximo passo, é tão simples, mas tão confuso quanto escolher palavras para um texto. Uma simples escolha errada, uma palavra errada, uma pedra errada e lá se vão suas roupas secas, nas situações mais tranqüilas. Com palavras as coisas são mais complicadas. Ao teu lado esquerdo, passa a correnteza vinda das quedas dágua e que vão até desembocarem num tranqüilo laguinho. Você já pode escutar o barulho da água batendo nas pedras, agora você poderia imaginar qualquer coisa, já tomou banhos de cachoeira?
Se eu te dissesse pra imaginar uma cachoeira agora, quais as chances de imaginarmos a mesma coisa? Cachoeiras me lembram minas gerais, carvalho, uma cidadezinha bem distante de BH, mas enfim. Imagine uma cachoeira, talvez nesse ponto você já tenha imaginado isso. Na sua frente há umas árvores, sei lá, de vários tipos Maria-choronas, eucaliptos, não sei o nome de árvores desse tipo de região, mas aquela planta ali próxima do tronco de árvore caído é uma samambaia, há pedras, pedras que te levarão até a cachoeira. Que até agora só existe na sua mente. Você pode parar um pouco a caminhada sobre as pedras escorregadias como palavras e olhar ao redor, eu acenderia um cigarro nesse instante. Mas, olha, tem mais alguém com a gente, eu não sei quem, talvez você saiba. Resolvi acender o cigarro do mesmo jeito. Te dou um leve empurrão, te assustando, você pensou que cairia na água, mas eu jamais faria isso.
Porque eu também estou escolhendo as minhas pedras, olho uma por uma, e nesse campo minado vou apalpando as pedras com a ponta do pé, pra ver se o terreno é firme, mas as vezes nos acostumamos com isso e pisamos em qualquer pedra, porque todas parecem ser firmes, até que opa! Quase. Já perdemos aquela confiança passageira, cada pedra volta a ser uma dúvida, e seguimos com cuidado. Espera um pouco, olha ali! Consegue ver? Tem peixes no rio.
Laranjas, com umas manchas pretas ao longo do corpo, dá pra ver a boca deles se mexerem, e as caudas como rabíolas dançando na correnteza, eles tem olhos bem redondinhos e negros. Acho que é o peixe mais lindo que já vi. Agora feche os olhos, não, é pra fechar mesmo. Ele dança/nada no escuro, imagine se ele fosse verde oliva com manchas vermelhas, se você piscar bem rápido várias vezes as manchas viram círculos de diversos tamanhos. Voltamos a andar, agora o barulho da cachoeira é mais próximo, e ao decorrer do caminho as pedras ficam mais distantes uma das outras, algumas são bem grandes e ao redor delas umas menores, a caminhada fica um pouco mais difícil, você tem medo de prosseguir, acha que não vai conseguir, mas tudo bem, eu estou aqui pra ajudar, o máximo que pode acontecer é você se molhar um pouco. Só que você não sabe, mas eu também tenho medo, aqui as pedras são mais escorregadias. Já posso sentir a cachoeira, acho que você também, porém as vezes parece que simplesmente ela não está mais lá. Só nos resta um silêncio e vestígios que vão na correnteza, fazendo a água dançar de um jeito a cada instante, sempre incerta. Me distrai tanto tentando reencontrar a cachoeira que acabei escolhendo uma pedra em falso, e quase caí. E seguimos mais uma vez, agora já podemos ver a cachoeira. Será que a água está gelada?
Com seu pé nu você verifica, colocando apenas o pé direito entre as águas e tirando o rapidamente. E como uma criança ri, de pronto todos os pêlos dos teus braços arrepiaram,é, a água está gelada. É um dia feliz, tudo tem ido muito bem, até que você pisa numa das pedras escorregadias e quase caí, eu te segurei na medida do que pude. Você arranhou as canelas e uma de suas sandálias escapou da tua mão, e agora já está a uns 10, 17 metros de nós, flutuando e dançando sobre as águas que a levam até a perdemos de vista. Fiquei preocupado, você triste e nervosa, aquilo me deixou mais cauteloso. Enfim terminamos as trilha de pedras e chegamos à cachoeira. Olhei para trás e você ficou uns metros distante, o tropeço tinha te deixado pra baixo, senti que gostaria de ir embora. Voltei algumas pedras e te olhei, tentei te animar, no fundo nós dois queríamos tomar um banho de cachoeira, mas o caminho nos deixou assustados. Mas já dá pra sentir as gotas que respingam nas pedras e explodem para todos os lugares, sempre cai alguma bem pequena nos seus olhos, e quando você abre o olho aquela gota como um prisma separa a luz do sol em várias cores psicodélicas através dos seus cílios. E mesmo assim,você tem medo, mas eu sinto aquilo tudo, e me jogo nas correntezas. Sem poses nem nada, apenas salto com toda s as minhas forças sobre as águas.
E lá fora você fica imóvel, e cada segundo se passa, é o tempo, implacável e nunca pára. E com o tempo eu não subo, me perdi para sempre?
Você olha atônita para a água, tudo bem? Pensa em morte, desespero, imagina o debater de meus braços, o gana por oxigênio, meu pé preso em algo, e se joga na água após quase dois minutos incertos e infinitos. Você sente a água te molhar dos pés a cabeça, mas dentro da água é impossível ter a noção disso, muito menos quando o corpo se molha por inteiro. E a água nem parece mais tão gelada. Você abre os olhos, a água não queima, é doce, não te incomoda, você vê-se no vazio. A única coisa que sente é o barulho distante das águas caindo sobre as pedras.
E alucinada procura para todos os lados, mas não me encontra. Estive ali algum momento? E todos os peixes, não consegue ver o fundo da lagoa, e aos poucos até o som das quedas dágua somem. E você se desespera, é instintivo, precisa respirar, mas nunca encontra a superfície, será que desceu demais? E não consegue segura e lhe falta o ar, o desespero te toma conta por completo, e entregue tente respirar sob as águas, mesmo sabendo que é inútil, mas o que fazer? E aos poucos engole aquela água, mas não sente mais falta do ar. Deves estar morrendo de verdade, sua visão também começa a embaçar, e o som da cachoeira já não existe mais. Nunca existiu. Já não se sente mais molhada, o lago está vazio, você está vazia. O que é o mundo, tudo é tão vazio, você passa a perder todos os sentidos aos poucos, não vês, não escutas nada, mas sabe que não está morta. E percebe que o mundo só existia através dos sentidos, o toque te dizia que aquilo existia, o ver te mostrava o que o mundo poderia ser, escutar lhe dava noção de tudo que acontecia ao teu redor e agora?
Mas você não está mais tão desesperada, talvez seja isso mesmo. E não enxergar mais luz alguma, já não enxergas nada. E aos poucos não sente mais teu corpo, mas de algum modo vê coisas que não existem, existiram, músicas, textos, conversas, pessoas, momentos, uma mesa de bar, um simples olhar, um sorriso, o despertar de um dia incrível e tudo é tão seu, faz parte de tudo, é como se as lembranças te dominassem por completo. São como filmes, vêm sobre teus olhos, ou mente, já não existe nada concreto como você sempre prezou. E eu? Já faço parte de tudo isso, ou não. Relembra de teus pais, tão importantes, tão ausentes, tão incompreensíveis, é assim a vida, uma percepção vaga de tudo. Você tenta perdoá-los, já foram jovens como você e por isso são assim, para tentar te proteger, ou não. Querem se corrigir através de tua vida, te moldar para coisas boas, sem te preservar por completo, tanto te privam, te protegem, para quê? No final não é tudo tão vazio? Tudo isso é bem vago, mas você não quer morrer ainda, mas para quê vive? Para ter medo de fazer coisas que de fato quer, mas nunca faz por medo, o medo também é vazio, pois tudo não tem um fim?
Isso se a morte for de fato o fim?
E o que é o fim? Não mais um conceito da sua cabeça? Assim como a cachoeira, e todas as perspectivas que você teve sobre todas as pedras em qual pisar, ou não pisar e que no fundo todas são iguais.

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