E de repente eu despertava sonolento em meio a mais uma entediante aula de geometria analítica, meus olhos ainda estavam embaçados e fragilizados pela claridade da sala. Olhei para o relógio da parede e ainda era cedo demais para ir embora, porém parecia que sempre estive ali, por uma eternidade. Com a manga da blusa limpei a boca babada de sono e me recompus. Tentei prestar atenção no conteúdo escarrado na lousa, mas foi meio inútil a minha tentativa, não conseguia me concentrar naquela matéria. Talvez a única coisa naquela sala que conseguia chamar a minha atenção eram os ponteiros do relógio na parede suja e rabiscada da classe. Que mais uma vez confirmavam a teoria da relatividade de Einstein, enquanto observava os ponteiros comecei a cair no sono levemente, fui salvo pelo sinal que batia no extremo do corredor do qual a minha sala se encontrava. Recolhi minhas coisas sobre a mesa e enfiei-as rapidamente na mochila, e segui o fluxo de alunos saindo da sala. Aproveitei a bagunça da troca de salas para ir ao banheiro. Chegando lá, as portas como sempre todas rabiscadas e ilustradas por pintos e vaginas por todos os lados, o ápice da testosterona juvenil, incluindo um anuncio de “gosto de um caralhão! Por favor entrar em contato 7162-8538”, me pergunto se de fato alguém chega a entrar em contato. No fundo todos sabem que isso é arte de algum amigo fanfarrão e mal intencionado querendo se divertir as custas do amigo, mas sempre existem aqueles que ainda não saíram do armário. Talvez um desses enrustidos ligue, seria uma situação bem constrangedora, mas muito engraçada. Havia três mictórios, dois deles estavam entupidos com papeis higiênicos molhados até a borda, não consigo entender o porquê disso. Uns vândalos, jogar papéis molhados no teto ainda é divertido, não chega a danificar muito o estado dos banheiros, mas entupir os vasos é muita sacanagem. Esperando o tempo passar me distrai limpando as marcas de merda na privada, aquelas freadas que a gente sempre lava com o mijo. Entrei no Box do meio, os outros ou estavam ocupados ou entupidos, como sempre. Aliviei-me e fiquei por lá até que os sinais soassem de novo e a turba alucinada retornasse para as salas de aula. Esperei que os ânimos, e pintos se aquietassem nos seus respectivos lugares e atravessei o corredor o mais rápido que pude. Chegando até o portão que dava para as quadras, era possível ouvir o estralo da bola ao se chocar ferozmente contra as divisórias de madeira entre as quadras, inclusive os barulhos estranhos e agudos que as chuteiras dos nossos amigos esportistas faziam. Arremessei minha mochila sobre o portão e depois o pulei. A quadra estava cheia, a bola corria de pé em pé, e os meninos alucinados gritavam e xingavam-se. Enquanto as meninas histéricas solicitavam seu direito a jogar também, escolas, um ambiente bem hostil para alguns. Nas arquibancadas, encontravam-se os fragilizados amiguinhos que eram excluídos pela falta de talento nos esportes ou simplesmente por ser feio demais, gordo demais, estudioso demais, baixo demais, embora os baixinhos sofram menos que os gordinhos. No outro oposto estavam estrategicamente os vulgos “populares”, quase um clichê norte-americano. Não me agrupei a nenhuma das tribos, sentei próximo aos muros para que pudesse ver quando a inspetora aparecesse, sentei-me e acendi um cigarro. Sim, não poderia estar fumando, por estar na escola vocês devem ter imaginado que eu ainda não tenha idade para isso, bom, eu quero que se foda! Em alguns minutos alguns amigos meus apareceram, me cumprimentaram e me serraram um cigarro como sempre. Sentaram-se, conversamos um pouco, deixe-me apresentá-los: Carlos, Júnior (na verdade seu nome é Antônio, mas ele prefere que o chame de Junior, ele acha Antônio muito antiquadro). Algo do tipo “ Oi, eu sou o Antônio!” E o “nariga”, eu não sei ao certo o nome dele, o conheci como “nariga”, e acabamos conversando direto nas cabuladas de aula, e agora eu tenho vergonha de chegar e perguntar qual seria o nome dele e mostrar que eu nunca o soube. Então o chamemos de “nariga”! Conversamos um pouco até que Carlos conseguiu arrastar os outros dois para jogarem uma partida de futebol. Aproveitei minha solidão e coloquei meus fones de ouvidos e comecei a escutar alguma música pra matar o tempo, o mais impressionante é que o ar frio da quadra não me deixava pegar no sono como a pouco. Fechei os olhos e me distrai com a música, me ausentando do mundo. Quando de repente uma pancada me atingiu no ombro fazendo com que eu derrubasse o cigarro na canaleta imunda e “despertasse” assustado, e percebi que o filho da puta do “nariga” tinha chutado a bola em mim pra me sacanear, apenas mostrei o dedo do meio para ele e o mandei se foder! Enquanto as outras pessoas riam de mim, inclusive uma menina que havia se aproximado, da qual eu ainda não tinha tido noção de estar ali. Ela ainda rindo se aproximou mais e disse:
_ Hei! Eu ia te pedir um trago desse,mas cheguei meio tarde!- e riu-se mais. Fiquei com vontade de lhe dar uma resposta grosseira, mas ela disse isso com uma simpatia que não me ofendi. E começou a andar, retirei o maço do bolso e lhe chamei.
_ Ô! ô baixinha.. não quer um inteiro? – e lhe estendi o maço.
Ela virou-se e voltou em minha direção, pegou o maço suavemente da minha mão e retirou um cigarro.
_ Cacete! Filtros vermelhos! São muito fortes cara, fodem toda a minha garganta, mas como você me ofereceu vou aceitar. Obrigada!
_ De nada, tem isqueiro?
_ Só tenho fósforos, mas odeio ascender com fósforos, sempre acabam dando um gosto estranho no cigarro. Tem isqueiro ai?
_ Acho que tá ai dentro do maço, dá uma olhadinha.
Ela reabriu o maço e verificou, apenas levantando os olhos pra mim disse.
_ Não tá aqui não. – E já colocou o cigarro na boca com uma das mãos e com a outra me devolveu o maço. É agora que vocês me dizem que daqui sairá algum papo intelectual e culto parecido com aqueles romances cultuados de escritores dados como marginais. Não, pessoal, isso aqui é a vida real, acho incríveis esses romances, são lindos mesmo e casuais, mas não consigo acreditar que sejam reais, e eles que nos fazem construir relacionamentos estranhamente belos como padrões para nossas futuras frustrações amorosas. E, aliás, eu não achei o isqueiro, provavelmente algum dos meus amigos me passou a mão. O procurei entre os bolsos e chequei o maço, e ele de fato não estava em nenhum desses lugares.
_ Porra! Foi mal, não achei meu isqueiro.
_ Tem problema não, vou de guarani mesmo!- retirando uma caixinha da bolsa, riscou o fósforo na caixinha umas duas vezes, até que ele acendesse. E rapidamente inclinou o palito para que o fogo subisse pelo cabo e não se apagasse rápido demais. Mas infelizmente o vento foi mais rápido do que ela, então ela sacou mais outro palito e me olhou, ainda com o cigarro na boca e o fósforo e a caixa nas mãos. E de canto de boca me disse:
_ É foda né!
Levantei-me e com as duas mãos em forma de concha fiz abrigo para seu fósforo, ela inclinou a cabeça próxima à caixa, a ponto de que assim que o palito acendesse já pudesse acender o cigarro. E rapidamente riscou o fósforo, que entrou em chamas e quase em seguida acendeu o cigarro e deixando aquele borrãozinho na lateral do cigarro. Acho que deve ser essa tostada que deve mudar o gosto do cigarro.
_ Valeu cara.
Apenas sorri mostrando que não foi nada, como todo mundo faz. E voltei a me sentar, ela se sentou logo ao meu lado.
_ Tá cabulando aula né?
_ Aham! Geometria analítica!
_ HAHA! Física!
_ Porque?
_Por quê o que?
_Porque perguntou se tô cabulando aula.
_ Ah... por nada não, é que quando eu cabulo fico por aqui também, daqui dá pra ver se a vaca da inspetora aparece. Só é foda quando chove, ai não tem pra onde correr, ai prefiro ficar dormindo na sala.
_ Verdade.- retirei o maço de cigarro do bolso e peguei um cigarro, colocando o maço entre nós dois. Ela automaticamente me estendeu o cigarro.
Acendi meu cigarro no seu e sorri.
_ Valeu.
_ Se liga cara, nem foi nada. Cara, esses filtros vermelhos realmente acabam comigo, mas nada como um Lucky Strike vermelho.
_ Também gosto, mas não tinha na padaria hoje. Tive que comprar esse Hollywood mesmo.
_ Cigarro do sucesso HAHA! Trash, mas nem são ruins não.
_ É, nem são.
_ Quantos anos você tem?
_ Acabei de fazer dezoito. - e sorriu pra mim, como se tivesse um poderoso brinquedo nas mãos.
_ Sério?
_ É, porque?
_ Não parece.
_ É eu sei, só porque sou baixinha, mas sou mais macho que muito homem.
_ Tô vendo, fumando, cabulando aula, quase um moleque.
_ Queimar os sutiãs né velho! E aula de física é um porre, só preciso saber que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, quase sempre não. – e apontou pra um casal se pegando furiosamente do outro lado da quadra. Ela olhou pra mim e me chamou para confidenciar algum segredo.Aproximei-me e ela disse sussurando:
_ Aquela garota ali é uma tonta, o cara que tá quase comendo ela ali, tava quase comendo uma outra ali nos corredores, e eles devem namorar, se liga na coleira no dedo dela.
_ Nossa.... que maldade. – e rimos.
_ Pois é, todo mundo sabe, e todo mundo fingi que não sabe e ele passa o rodo geral. E olha que é um babaca, trata todas com se fosse um pedaço de carne com tetas.
_ Ai é foda né!
_ Ah cara foi mal, isso deve ter soado muito feministinha né?
_ HAHA nem pega nada, é a pura verdade, mas tonta é ela que caí na dele.
_ É, falou tudo. Mas tem mulher que é besta né cara, já vive alienada naquele ambiente machista em casa, as vezes nem tem culpa, só não sei quem é pior, se é ela que se submete a isso ou se a outra piranhuda lá que desvirtuou todo essa liberdade feminina manja?
_ Tá, agora suou bem feminista.
_ Foi mal, haha.
_ E você? Quantos anos?
_ Dezoito também.
_ Ah legal cara!
_ É, médio, não é tão legal assim, a gente sempre pensa que vai fazer mil coisas quando fizer dezoito, ai fazemos, e no fundo vemos que não era a idade que nos acorrentava manja?
_ Só!
_ Tu ainda depende dos teus pais, tem que dar satisfações, porque eles que nos sustentam,e tudo não passa de uma falsa sensação de liberdade, a única vantagem é que já podemos entrar em bares e essas coisas, mas sem grana também não adianta de nada.
_ HAHAHA ai cara, que horror! Não fala assim, deixa de ser pessimista.
_ Ah, nem é pessimismo não, é a real.
Ela termina seu cigarro e o paga na sola do tênis e deixa guimba, (olha como tenho vocabulário gente) ao lado do maço.
_ Cara, tu sabe quanto tempo falta pra próxima aula?
_ Calma ai, vejamos... faltam uns 3 minutos. Vai voltar é?
_ É cara, aula de história, gosto de história.
_ Ô, legal, também gosto. Pena que meu professor é ruim demais.
_ HAHA, que pena!
Terminei de fumar quando ia jogar a bituca no chão ela me cutucou.
_ Ê cabação! Não joga a bituca no chão né.
_ E o que eu faço, nem tem lixo?
_ Faz assim ó. – ela pegou o fim do cigarro da minha mão, apertou a ponta do filtro com o indicador e o polegar e a começou girar a bituca entre os dedos, até que o resto da brasa caísse no chão, e então pisou sobre a brasa e me devolveu a guimba( haha).
_ Viu?! Agora tu fica com ela até achar um lixo.
_ Entendi, legal, não sabia dessa tática não.
_ Cara, valeu, agora eu vou nessa. Até mais e não é pra jogar no chão não heim!
E saiu correndo para alguma sala. Resolvi voltar pra sala também, peguei o maço, coloquei-o na mochila e tranquilamente voltei para a classe, durante mais uma troca frenética de salas. Vou acelerar o processo, dormi mais um pouco, respondi as chamadas e fui para casa como todas as peças da produção.
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