Um silêncio utópico domina a madrugada serena de um sábado sem perspectiva alguma, de companhia só o último Lucky strike e a melódica melancolia de lady stardust ao fundo do quarto. No céu não há estrelas, quer dizer na verdade elas estão lá em algum lugar, mas as possibilidades de ver algum astro hoje está muito remota. O céu está com uma cor que ainda não consegui definir, mas algo entre o azul escuro e o roxo. E a chuva cai em prestações, acendo o último cigarro, só mais esse e irei dormir. Debruço-me na janela do quarto, e a cada tragada jogada ao ar um pouco de mim sai naquela fumaça espessa e branca. Bato o cigarro para que caiam as cinzas, elas como numa cena de antigos filmes noirs dissolvem sobre as possas de água da última parcela de chuva. Até que começa Rock ‘n’ Roll Suicide, me identifico com essa música, não que eu seja um depressivo suicida. Mas me identifico óras! Precisa de alguma descrição para se apegar a algo? Pois então. E foi ai, que me lembrei de você, não que tenha me esquecido, em momento algum. Mas lembrei-me de um dia em especifico, foi naquela semana de overdose “Bowie”, é foi nesse período.
Eu peguei o violão e te disse que tinha uma coisa muito bonita pra te mostrar, e você com aquele seu jeitinho, disse-me então mostre homi. Eu arranhei uns acordeis e comecei, e foi justamente naquele verso “You are rock ‘n’ roll suicide...”, que seus olhos brilharam como eu jamais veria outra vez. E você me disse “Ai que lindo!”, não sei lhe explicar como aquilo me satisfez, talvez pra você tenha sido um fato tão banal e bobo, mas aquela é uma das melhores lembranças que trago. E talvez tenha sido o mais profundo que eu possa ter chegado até você, talvez por isso aquela música me represente algo ou coisa parecida, essas coisas psicosomáticas , coisas da cabeça você sabe. Mas no fundo mesmo, toda vez que escuto essa música, me vem outra cena na mente. Porem essa cena nunca deveria ter entrado no ato, ainda mais depois que vi aqueles mesmos olhos de tua platéia me desprezarem e repreenderem naquela festa. E logo em seguida daquele olhar, você me disse com um tom de voz que até hoje me machuca, não por brutalidade ou selvageria, mas pela a tristeza e decepção levemente adocicadas e calmas.
_ O que é isto na tua mão? (Com um ar total de decepção.)
Foi ai que senti, que talvez nunca mais seriamos os mesmos. Não soube o que fazer, aliás até hoje não saberia. Imbecil, foi isso que seus olhos me disseram segundos após. Então tentando descontrair a ofereci um gole de cerveja. E dessa vez foi mais rude.
_ Quê é isto na tua mão?
Não tinha como evitar, e mostrei-lhe a mão. Nesse instante meu ato estava se consumando, queimando e destruindo-se entre meus dedos, a cada milímetro que o cigarro se desfazia em chamas. Antes que eu te dissesse qualquer coisa, você me disse todas aquelas coisas, se eu era um idiota? Desde quando fumava? Se eu era tapado? Retardado. Mas aquilo era inevitável, o que me doeu foi que sabia que após aquilo, tudo se consumiria como um velho cigarro. E em questão de tempo seria pó. Naquele momento senti que todos os elos que haviam entre nós enfraqueceram.
Eu sem o que dizer. Então você disse primeiro:
_ Não me interessa, a vida é sua faça como quiser. Então virou e vi suas costas naquele lindo vestido preto partirem em direção a porta de saída. Puxei-te pelo braço, e as únicas palavras que consegui vomitar naquele momento foram, que não me levasse a mal e que não fazia aquilo por rebeldia ou para me mostrar. Mas isso não mudava de nada o fato, e diferente das outras vezes, desta você não discutiu nem questionou mais nada. Deu-me um beijo no rosto e disse que me cuidasse e aproveitasse a festa sem fazer besteiras. Isso faz meses, mas desde aquele dia sinto que nossa chama está se apagando. Talvez não por parte sua. Afinal não se apaga o que não se acendeu, mas devo estar me conformando ou simplesmente aprendendo e amadurecendo quem sabe. Já conversamos tanto, até mesmo daqueles assuntos que a deixavam chateada e até um pouco impotente, impotente do mesmo jeito que eu ficava ao tentar te dizer tudo que realmente gostaria de ter tido, e que você ao contrario de mim, se lamentava por ter se aberto demais. E brincava tentando disfarçar suas magoas, dizendo de como foi boba ou coisa parecida em ter dito tudo o que sentia e como foi infantil e precoce de sua parte. Eu ria e te tranqüilizava dizendo algo que a animasse, mas no fundo você sabia que indiretamente tudo aquilo me atingia diretamente. Mas não remexemos com o passado e seguimos, por que a cada ato a cena muda. E naquela festa ou talvez antes eu já tivesse mudado, talvez esteja mudando hoje.
Dou a última tragada no cigarro e como uma bolinha de gude o arremesso pela a janela, a bituca ainda acesa corta a escuridão como um foguete e se esfarela no chão ainda úmido. Enquanto “Bowie” chora o último ALONE ao fim de Rock ‘n’ Roll Suicide. E quando em seguida nas caixas de som soaram as primeiras notas de “Little Bombardier” foi que percebi. Que o dia amanhecia, e não via a hora para te ver e lhe dizer as coisas em que pensei durante o meu “último” cigarro.
4 comentários:
Agora sim.. a minha predileta! *-*
Eu sinto a presença dela nesse texto. Ta realmente bom Gui.
Depois que li alguns de seus textos, me lembrei que quando estudávamos juntos, você fazia uns textos muito bons tbm, e vivia me mostrando! Estão realmente muito bons! =]
gostei desse!!
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