Enjoado do academicismo que consegue difamar até as idéias mais belas, recolhi minhas coisas e silenciosamente e calmo me retirei de mais uma aula. Onde algum doutor prepotente simplesmente rebaixa seus “pupilos” e os humilha, apenas por vaidade. Um grande boçal, de auto-estima baixa, que de algum jeito precisa enaltecer seu ego. Assim que fechei a porta da sala atrás de mim, abri minha bolsa em busca do meu maço de cigarros e fazer uma leve contagem de quantos trocados me restavam.
Mal terminei de contá-los, cinco reais e trinta e cinco centavos, a porta da sala abriu-se vagarosamente e uma garota saiu, fechando a porta por trás de si, tão fugida quanto eu.
E de repente me olhou e quase sussurrando escarrou:
_ Odeio esse nojento de merda! Ele é uma arrogante, me recuso a ver a aula dele!- e bufou enraivecida.
Olhei curioso e até sorrindo de tal cena que havia presenciado, ela esta falando do professor, pensei, mas como uma criança curiosa, não me contive e perguntei.
_ O que?
Ela me olhou com uma cara indignada, como se eu devesse saber do que ela falava, eu sabia, mas me agradava ver aquele teatro por parte dela, teatro de tanta indignação. Coitada.
Para não fazê-la explicar tudo, seja lá o que fosse, eu quebrei o silêncio.
_ O que aquele puto fez dessa vez?- E com a mão lhe indiquei a porta da sala.
De repente ela começou a vomitar toda sua repulsa contra o escrotal docente, e sem perceber já estava quase gritando. Achei melhor interrompê-la, antes que ela atrapalhasse a entediante aula que acontecia dentro da sala ao lado, e também para evitar algum tipo de conflito caso por ventura nosso amado professor saísse para pedir que ela fizesse um pouco menos de barulho.
_ Ei! Ei, calma, eu queria fumar vamos lá para fora?
_ Ah beleza, vamos sim.
E conversando bem baixinho nos retiramos do prédio, de imediato retirei um cigarro do maço e o acendi. Estava uma noite gostosa, um pouco quente, mas com uma brisa doce e refrescante, me deu uma puta vontade de beber uma cerveja, acho que meus trocados dão pra toma algo. Enquanto fumava ela recomeçou seu discurso.
_ É um absurdo, esse professor é um grande filho da puta, ele trata os alunos como se a gente não soubesse nada e ele fosse o máximo, ai do nada ele pergunta uma coisa totalmente fora do tema da aula e acha que temos o dever de saber, vai pra porra! Filho da puta!
Inevitavelmente eu ri, apesar de indignado com a aula, eu achava engraçado o modo como ela reagia a tudo aquilo. E ela continuava com todo seu ódio. Aquilo tudo só me deixou com mais vontade de tomar algo e sentar tranquilamente para fumar.
_ O que acha de tomarmos uma cerveja? – sugeri.
_ Acho uma boa, esta uma noite agradável né?
De um momento para outro, ela se transformou, não parecia a mesma, me respondeu de uma maneira tão gentil e cortes.
_ Fechado, vamos então!
E começamos a nos dirigir pro bar, assim que recomeçamos a andar reparei que ela carregava uma bolsa em cada braço e que uma delas parecia ser pesada demais para seus braços frágeis. E mesmo com dificuldades ela não me pede ajuda para carregar a bolsa, por orgulho talvez, deveria me oferecer para carregar, ser um cavalheiro, as mulheres dizem que eles estão extintos e tudo o mais, mas todo homem que se oferece para segurar a bolsa de uma mulher, em alguma profundidade de sua mente suja deseja se aproveitar da pobre dama, ou então só o faz por simples vaidade, para sentir-se um cavalheiro, o que automaticamente de alguma maneira é para impressionar a moça em questão, homens não querem ser cavalheiros por simples cavalheirismo, ninguém é tão altruísta, e mesmo que não o agrade o homem acaba se oferecendo a ajudá-la.
_ Escuta, quer ajuda pra levar a bolsa?
_ Ah obrigado! E me entregou o pesado fardo antes que eu terminasse de falar que a bolsa parecia pesada, como se aproveitasse de mim, aquilo transtornou-me um pouco, seria muito mais digno que ela me pedisse ajuda com a bolsa, não seria humilhação nenhuma, muito menos se mostrar inferior perante ao homem, como muitas mulheres pensam, seria simplesmente sincero e verdadeiro, mas muitas delas por um orgulho feminino exagerado e imaturo impedem-se por vaidade.
E continuamos andando, de repente ela me perguntou:
_ Desculpa, mas qual o seu nome mesmo?
_ Carlos.- eu sabia o seu nome, não me lembrava ao certo como sabia, mas tinha certeza que já havíamos sido apresentados, afinal estudávamos na mesma classe e de algum modo nos cumprimentávamos casualmente pelos corredores, mas nada além disso. E acredito que ela também soubesse meu nome, mas quis certificar-se disso.
_ E o teu?
_ Helena.- ela me respondeu e esboçou um leve sorriso.
Sorri em retribuição e ela me disse:
_ Acho que já fomos apresentados antes, não?
Sabia, ela também sabia, mas não queria se mostrar tão indiferente e resolveu ser sincera para evitar qualquer gafe que a atrapalhasse.
_ Não me lembro, talvez sim. Sempre nos cumprimentamos rapidamente nos corredores, e também somos da mesma classe, é bem provável que já tenhamos sido apresentados.
Como de costume perguntamos todas as convenções de sempre, quantos anos, do que trabalha, onde mora e essas coisas todas. Após um socioeconômico completo, torna-se sempre inevitável tentar conhecer os gostos do outro, mesmo que isso não interesse muito, o que as vezes só nos interessa devido a segundas intenções ou uma boa tranqüilidade de espírito, ou que os gostos sejam totalmente opostos, mas parar quebrar com a inquietude de conversar com uma pessoa da qual ainda não se tem intimidade nenhuma, isso de fato é inevitável. Porém antes que isso acontecesse, no caminho ao bar, encontramos um grupo de amigos em comum. Todos um pouco eufóricos e felizes.
_ Eae pessoal? Onde vocês vão?- eles nos perguntaram.
Quase que simultaneamente respondemos que iríamos para o bar e os convidamos.
Um deles se aproximou como alguém que vai contar um grande mistério e puxou minha cabeça com a mão para confidenciar-se comigo.
_ Vamos fumar um?
A noite já estava sem quaisquer perspectivas sólidas, com exceção a idéia de irmos ao bar, fumar me abriria ainda mais o apetite para beber, e também tornaria cada cerveja “a” melhor cerveja do mundo e ainda tínhamos tempo suficiente para aproveitar e também esperar que o efeito passasse, mas ainda tenho que voltar para casa, voltar tarde e em condições de certa maneira, adversas, sempre acaba sendo meio tenso, não sei se devo fumar, posso fumar outro dia, mais tranqüilo, mas porque não? Ainda tenho a noite inteira.
_ Eu topo. – respondi.
E mais uma vez como uma criança ele se aproximou para cochichar algo, mas dessa vez para a nossa nova amiga, ela sorriu e fez que sim com a cabeça, provavelmente deve ter sido a mesma proposta, engraçado, quanto mais ele tenta camuflar, mais tudo parece algo ilegal e imoral, foi acostumado pelo sistema a ser assim.
...
2 comentários:
Tá foda cara, orgulhinho :*
muito bom, melhor a cada texto.
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