26 de abr. de 2011

Crônicas Familiares

Acendia uma vela para iluminar o caminho do morto que estava encomendado e acendia um cigarro a espera de noticias que confirmassem o que saiu nas cartas.

Quando a morte não falhava vestia-se de luto e ia aos velórios, substituía o lenço colorido por algo mórbido, os vestidos de chita por um humilde vestidinho preto e passava óleo de cozinha nas pernas ressecadas para que elas brilhassem, calçava os pés com uma conga preta e ia.

Chorava pelo morto, relembrava histórias com o falecido, quando o conhecia porque para ela não havia velório perdido, servia-se de café e as vezes fazia alguma oração para encaminhar a alma do pobre coitado, seja ele quem fosse. A tira colo sempre levava meu tio, para ambos discretamente rirem dos mortos que morriam fazendo caretas e encherem-se das comidas que se serviam nas casas, pois naquela época velava-se os mortos em sua própria casa ou de algum parente mais próximo.

Algumas vezes ia aos velórios de comboio, com ela iam meu tio, minha avó e outra tia de minha mãe, ao fim do velório ela os despachava e seguia o cortejo até onde o defunto seria enterrado, via o corpo descer a sete palmos, benzia-se, jogava um punhado de terra sobre o caixão e anotava o número do túmulo num papel qualquer, pois no dia seguinte seria aquele o que sairia no bicho.

Quando por acaso o número da lápide dava veado já morria de rir, o pior que ela dizia que os veados sempre ganhavam. Não podia esquecer-se também de anotar a placa do carro funerário, gostava de fazer mais de uma aposta. Uma em cada banca.

No dia de sua morte meu tio lhe acendeu uma vela de sete dias, um cigarro junto a um copo de cachaça e por memória a ela joga o número de sua lápide no bicho até hoje, mas nunca ganhou nada.

Na festa de casamento estavam quase todos os parentes por parte da família de minha mãe, da de meu pai estavam apenas dois tios e alguns amigos de trabalho, apesar de grande foi uma festa simples, com muita bebida e ótima comida, pois titia além de macumbeira e benzedeira era bruxa na cozinha, conhecia todos os temperos do mundo e tinha uma amizade particular com pimentas, tinha um pé plantado no jardim que dava pra rua, dizia que era pra espantar gente invejosa. Fazia de tudo na beira de um fogão, baião de dois, feijão tropeiro, galinha caipira, caldo de mocotó, tutano na panela, xuriço, fazia até formula do amor, daquelas que trazem a pessoa amada em três dias, mas sob um bom pagamento é claro, afinal tinha que dar algo pro santo.

Após o casório meu pai mudou-se para um quartinho alugado junto com minha mãe, em algum momento disso eu nasci. Com o meu nascimento tivemos que nos mudar por falta de espaço e por brigas de meu pai com meu tio, que alucinado roubava as coisas de meu pai para sustentar seu vício, parte da herança de família.

O que futuramente meu tio viria a justificar-se dizendo que o roubava como lição para que não traísse minha mãe, que na verdade queria era ter o enchido de porrada, mas só não o fez por respeito a minha mãe. De lá fomos para a casa onde passei boa parte de minha vida, e da qual estou agora partindo.

Nenhum comentário: