26 de abr. de 2011

Crônicas Familiares

No dia seguinte acordei de cueca sobre o sofá da sala, durante dias ela não me dirigiu a palavra e ignorava meus agrados como símbolo de uma tentativa de desculpas e de restaurar a paz em casa.

Nunca tivemos uma intimidade, até a sua aposentadoria mamãe trabalhava demais, como ainda o fez por dois anos após aposentada. Era sua fuga das crueldades do mundo, era algo que ela podia ter o controle, seu ambiente de trabalho não era um lugar de incertezas e dificuldades sentimentais como a privacidade de uma vida particular.

Era raro vê-la sorrir com exceção a alguns risos histéricos que ela dava ao ver vídeos cacetadas nas entediantes tardes de domingo em que não trabalhava.

Certa vez perguntei a minha avó se ela sempre fora assim, minha avó disse que sim, mas que antigamente era menos desanimada. Que a amargura nasceu da separação de meus pais, e que minha ao mãe descobrir a traição de meu pai, que veio após a traição do primeiro namorado de minha mãe.

Por milhares de vezes recriei a história de amor dos dois na cabeça, atribuía imagens as versões que eram contadas pelos meus tios e minha avó, minha mãe nunca proferiu uma palavra sobre isso.

Conhecia todos os lugares, Alameda Barros onde minha mãe trabalhava e conheceu meu pai em uma das confraternizações da empresa, mas na minha versão não era a Alameda Barros do final dos anos setenta e sim a velha e imunda Alameda Barros dos anos dois mil, cheia de carros, marreteiros e suas barraquinhas de diversas bugigangas compradas no Paraguai, mendigos que invisivelmente moram pelas calçadas enquanto as madames dirigem-se em direção a Higienópolis.

Na época minha mãe ainda tinha cabelos cacheados, posteriormente ao ver uma antiga fotografia descobri que usava óculos de grossas armações transparentes. Meu pai quando não estava com o uniforme de trabalho vestia-se com camisas floridas e coloridas, nos pés ambos de bamba, se fossem nos anos dois mil talvez calçassem pares de all-star.

Na foto minha mãe sorria, talvez já houvesse conhecido meu pai, talvez ele que esteja por detrás da câmera lhe pegando de surpresa e eternizando provavelmente o único sorriso de toda a vida de minha mãe e os óculos que eu iria inserir na minha imaginação para sempre.

Mas não importa o quão imaginativo eu fosse sempre havia lacunas na minha história sobre eles. Pois só conheci o lado amargurado de minha mãe, seu amor pelas plantas e sua obsessão pelo trabalho. Era-me inconcebível a imagem de ambos trocando olhares, sorrisos, jogando conversas fora, meu pai a chamando para comerem juntos no horário de almoço como pretexto para melhor conhecê-la, lhe presenteando com discos da Elis Regina ou algo mais simples como um KCT do Roberto Carlos.

De mãos dadas descendo a Barros até a Angélica a caminho de alguma gafieira ou rock bar, ela não gostava de samba e ele não gostava de rock, ela nunca foi de beber e por isso ele só bebia quando ela estava ausente. E por volta de umas dez horas da noite ele a levava até o terminal da barra funda para que ela espera-se o “Brasilandia” ou quem sabe “Jd. Guarani” e talvez nos degraus de um ônibus tenha acontecido o primeiro beijo, que ficou com um gosto de doce despedida e a inquietante curiosidade para o dia seguinte de trabalho, onde ela ficaria sem jeito de encontrá-lo mesmo que ansiosa por isso. Nunca saberei como tal beijo aconteceu.

Minha mãe nunca entrava em tais assuntos relacionados a meu pai e ele por sua vez sentia-se envergonhado de tocar em assunto que a envolvessem, principalmente na minha presença.

E após alguns anos de namoro e noivado, mesmo contra a vontade de minha avó casaram-se. O casório ocorreu na paróquia de nossa Senhora da Freguesia do Ó, com a festa no casarão de uma tia de minha mãe, uma prima de minha avó que era viciada em jogatina, principalmente em jogo do bicho.

Uma nordestina da pele queimada, com ares de cigana, lenço na cabeça e longos vestidos de chita e chinelas, com um pé na umbanda e outro no catolicismo, mas sempre envolvida com qualquer tipo de misticismos e mandingas.

Ela que havia advertido minha avó para que não tolera-se a união, pois havia visto um futuro desastroso no baralho e para certificar-se levou minha avó aos búzios para que ela mesma visse por sua própria conta e com mais de tipo de advertência divina.

Era levada numa bebida e puxada numa caipora, fumava e bebia como ninguém, botava muito beberrão pra dormir e ainda ria-se feito pomba gira, mas jamais esquecia-se de seu terço dependurado sobre o pescoço. Terço que enterrou mais de três gerações de todo o bairro, para sustentar seu vício no bicho fazia serviço de mesa branca e lia tarô, quando previa morte era uma alegria que só.

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