I
A porta cerrou-se enclausurando todo o vazio da casa, no miolo a chave girou entre minúsculas peças e engrenagens de ferro e mínimas quantidades de óleo ou qualquer tipo de graxa. Na boca metálica uniam-se as dentições da chave e com eles o segredo que guardava todos os outros, uma porção de segredos.
Eu olhava para minha mão semi-fechada sobre aquela junção de segredos, os pequenos pêlos sobre as costas de minha mão, e na raiz de cada um deles um ridículo poro, quase insignificante, tão imperceptível quanto os polens de uma flor, como aquelas que enfileiravam-se no corredor ao lado da porta que eu acabava de fechar. Eram diversas e de diversos tipos, reino, filo, subfilo, classe, ordem, família, não, aliás, acho que essas classificações só servem para os animais, mas eram de uma variedade incrível.
Samambaias, girassóis, lírios que infelizmente sempre morriam, um pezinho de hortelã, manjericão, um pé de arruda que infelizmente também nunca vingava, toda vez que saia minha mãe arrancava-lhe um chumaçinho e o enfiava entre o peito e o sutiã e com a mão direita fazia o sinal da cruz três vezes, sobre a testa, sobre o rosto e sobre o peito, habito herdado de minha avó. Que sempre nos dizia que a arrudinha num vingava por culpa de muito “ôio gordo”. Havia também uma de lindas e enormes folhas verdes da qual até hoje não sei o nome, aquela era a sua favorita.
A única herança de minha mãe a qual dou valor, o resto não me importa muito, todo o resto que só me trará aborrecimentos, assim como a diabete que ganhei de presente da família do meu pai a única lembrança que me restou de minha outra avó, que infelizmente nunca cheguei a conhecer, dela herdei a diabetes e uma linda goiabeira que vivia no quintal, mas que hoje já não existe mais.
Retirei a chave do miolo, pus a no bolso da calça e conferi se a porta realmente estava fechada, uma estúpida mania que sempre possui, girava a chave duas voltas completas a retirava e imediatamente dava dois solavancos na maçaneta para conferir se tudo estava certo, por vezes me batia de repente um impulso uma cegueira que me fazia fugir a memória, e após fazer todo esse ritual perguntava-me se havia trancado a porta e como desencargo de consciência lhe dava mais um solavanco na maçaneta de metal, isso quando não me encontrava parado já no fim do quintal e próximo a rua questionando-me se havia trancado a porta devidamente, tranquei, está trancada, mas na dúvida sempre acabava não me convencendo disso e retornava confuso até a porta para conferir tudo novamente. Acredito que certo dia deva ter ido e voltado umas duas vezes para certificar-me sobre o devido trancamento da porta.
Passei a mão sobre o bolso da calça para conferir se a chave ali também estava, com os dedos sentia-a em relevo entre o tecido da calça e o tecido de minha perna ou melhor entre as diversas camadas de tecido, da minha pele, da calça e do bolso. No chão ainda havia as marcas de terra dos antigos vasos de flores, o jardim urbano de minha mãe havia desmembrado-se, o lírios iam para o lixo nos deixando apenas seu vaso com terra para que tentássemos a sorte com outras plantas, bem, em uma dessas tentativas algo brotou, mas não sei mais qual dos vasos e nem o que vingara naquele vaso anti-lirios, acredito que seja lá o que tiver vingado lá esteja agora no jardim de meu tio, fiquei com o pé de hortelã, pois eu que o havia plantado e por isso era como um filho pra mim e fiquei também com a planta das lindas folhas verdes, é como minha mãe pra mim.
Cada um daqueles vasos e plantas possuía uma história, quais minha mãe conhecia todas de cor e salteado e no inicio de sua velhice costumava contar a todos com carinho em frente a xícaras de café e bolinhos que ela mesma fazia, quando não lhe doíam as pernas.
Tento me lembrar das histórias, mas a cabeça só me vem a dos lírios que sempre morriam, e de um pé de girassol que eu plantara uma vez que também não deu muito certo, o regava com carinho, enfeitei seu vaso com pedrinhas e conchas que havia trazido da praia, a cada descida ao litoral trazia um presente para meu girassol, mas um dia manchas negras apareceram em suas folhas e como uma criança doente ele começou a murchar e parar de correr atrás do sol, as manchas que no inicio eram pequenas e pareciam pequenos carrapatos começaram a expandirem-se, fiz de tudo o possível para curar meu pobre filho, mas com o tempo suas folhas tomadas pelo negro da desconhecida peste começaram a cair, uma por uma.
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