26 de abr. de 2011

Crônicas Familiares

E com ele faleceu também uma planta frágil e de flores rosadas também vitima da mesma praga, que até hoje não sei o que causou tal luto. Cada uma daquelas flores eram como filhas para minha mãe, na sua velhice cheguei a acreditar que cada uma delas até possuía um nome e as que não possuíam nome tinham toda uma cadeia genealógica e histórica, essa é de uma mudinha que dona Maria me deu de uma planta que ela ganhou da nora casada com o seu filho mais velho, aquela é de uma mudinha que eu pedi para a vizinha de uma planta que ela me disse que era bom para fazer um escalda-pé, ou aquela que era bom para tirar o mal olhado, uma pra chamar dinheiro, outra pra espinhela caída e em cada uma delas séculos de uma medicina popular que minha mãe com o tempo passou a crer fielmente.

Não me lembro a história que carregam os esporângios daquelas folhas grandes e verdes da planta favorita de minha mãe, no corredor que dava para o quintal e por fim para a rua estavam todas as mudanças mais pessoais, enfileiradas assim como antigamente ficavam os vasos, dentro daquelas caixas estavam guardadas todas as minhas lembranças com mais trabalhoso cuidado feito de papelão e metros incontáveis de fita adesiva, e dentro das caixas minhas coisas todas enroladas em edredons e dentro deles pedaços de noticias protegiam meus objetos mais preciosos.

Os sentimentos eram catalogados nas laterais das caixas com uma tinta vermelha e rabiscada e em letras colossais e tortas, fotos, livros, CDs, papeis, cadernos, roupas e por fim uma de diversidades, aonde ia todos aqueles sentimentos materializados do quais não soube definir.

Coloquei as caixas mais brutas na caçamba de um velho caminhão e retornei para buscar as mais frágeis, e estranhamente a sortida era uma delas, enquanto levava uma por uma para o banco traseiro do carro de meu amigo que me auxiliava ia recriando mentalmente o que havia em cada caixa, levei primeiramente a de fotos e todos aqueles recortes da minha vida, recriava minhas fotos favoritas, de dias inesquecíveis, alguns bons outros ruins, eu, meu primo e um tio, ambos sobre as quedas de uma cachoeira no interior do Paraná, mas na minha mente a foto ganhava vida.

Meu tio com aquele sorriso malicioso herdado do cafajeste de meu avô paterno, do qual nunca conheci, meu primo, filho do irmão de meu pai com uns pneus de gordura caindo sobre a apertada sunga preta presa por um elástico branco e um enorme óculos escuros e eu com um sorriso tímido, uma bermuda rasgada e pequenos filetes de sangue escorrendo do joelho ralado.

Havia caído minutos antes, todos estavam divertindo-se nas águas quando escorreguei em uma das pedras e gritei algum palavrão como porra! ou caralho!

Meu primo caiu-se a rir como uma hiena selvagem e dando soquinhos na superfície da água, meu tio deu uma risada esporrada até lembrar-se de averiguar se eu havia me machucado, levantei-me com o joelho latejando e todo esfolado, em segundos meu sangue começou a destilar-se na água que corria em direção em algum lugar e com ela levava meu sangue para o desconhecido, talvez até para outros estados.

Ainda tentando conter o riso meu tio aproximou-se de mim e ao perceber que os estragos haviam sido mínimos desembestou a rir tão alto como meu primo, e ironicamente me perguntou se estava tudo bem, segurando o choro lhe respondi rindo que sim para que não me tornasse o centro das maliciosas atenções de meu primo, o que foi inevitável.

Na noite daquele dia meu tio perturbou toda a felicidade de nosso passeio com sua bebedeira, herdada do pai que nunca conheceu o avô que minha avó amorosamente amaldiçoou até o dia de sua morte. Mas aquela não foi a única bebedeira de meu tio, suas sextas-feiras possuíam setenta e duas horas que acabavam em manchas de barro no tapete da sala de minha avó e camisas sujas de vômito, vinho e algo mais.

E foi assim até sua morte.

Suas noitadas criaram em minha mãe traumas enormes, e a cada copo de bebida que eu colocava a boca, ela refletia em mim a imagem de meu tio e muitas foram as nossas discussões a cada vez que eu chegava cheirando a cerveja, cigarro ou as chagas de meu tio e por mais que eu sempre a dissesse que éramos pessoas diferentes com convicções e modos diferentes pra ela o medo de tal herança familiar era muito mais forte, tão forte quanto as estraladas que arderam em minhas costas marcadas pelas espadas de São Jorge que minha mãe havia agressivamente retirado do quintal para me bater no dia em que tomei meu primeiro porre, enquanto a água fria caia, eu estava sentado no chão do banheiro com o cu sobre o ralo e as pernas arriadas todas vomitadas, nu como vim ao mundo.

Na minha frente estava minha mãe com as enormes folhas de espada de São Jorge, os olhos embotados de lágrima e maquiagem e me condenando como condenava ao meu tio, que não aceitaria levar a mesma vida submissa e angustiante que minha avó levava com meu tio, apesar do seu nervosismo mamãe ponderava-se nos palavrões, sempre foi muito educada e completamente fechada para o mundo e de um puritanismo exarcebado.

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