8 de jun. de 2011

As empadas.

Cinquenta centavos a empada gritava o moleque, mas sua voz derretia no ar e as pessoas seguiam, preocupadas com a janta e o reprise do ultimo capitulo da novela. Eu descia as escadas no centro comercial da cidade e o menino seguia a gritar, cinqüenta centavos a empada, mas num tom tão atonal que me fez pensar se ele pensava que diabos ele fazia ali em pleno sábado a noite.

Aos seus pés havia uma caixa de isopor que deduzi ser o tumulo das empadas, que naquele ritmo só seriam vendidas no reprise do final da próxima novela, quando os atrasados telespectadores descobririam que o moçinho era o filho perdido do rico empresário que deixou tudo pro bastardinho que virou o herói da história no decorrer da trama e desmascarou o vilão que até quase o fim da novela era o moçinho e tido como verdadeiro filho do diabo que o parta, não sei se foi assim o fim da novela, mas sempre é ou quase sempre.

Me perdendo nessa reflexão terminei de descer as escadas e o menino continuava lá com suas empadas, e as pessoas com suas barrigas gritando pelo jantar que estava em casa por fazer, mas estava.

Comecei a pensar também no meu jantar e resolvi voltar para comprar algumas empadas, não estava com fome, mas com preguiça e cozinhar seria triste, como sempre se é quando temos que cozinhar e retirar as roupas do varal para terminar de secá-las a ferro para o dia seguinte ou qualquer coisa do gênero, mas me lembrei que era sábado e que não havia compromissos para o dia seguinte.

Voltei e lhe pedi três empadas.

Ele me respondeu que era pra já, e com um guardanapo de papel enfiou as empadas num saquinho de papel. Lhe dei dois reais e fiquei aguardando meu troco, enquanto eu devorava a primeira empada percebi que o menino entrava numa odisséia matemática tentando calcular meu troco mentalmente revirando os olhos em busca da resposta que deveria estar ali dentro em algum lugar.

Como estava sem pressa comi tranquilamente, quando chegava ao fim da segunda empada o menino derrubou enfim aquele processo matemático que o incomodava e me olhou com uma cara tímida, assim meio sem jeito.

Deduzi que ele tivesse se perdido nessa empreitada e não sabia qual seria meu troco, aliás, cheguei até a pensar que ele tivesse achado que não me devia troco algum, até ver que eu fiquei lá parado com a boca cheia de empada e achou que eu esperava algo, e de fato esperava.

Ele retirou mais uns guardanapos e achei que ele me ofereceria, mas então ele me perguntou:
_ Vai mais uma empada moço?

Olhei pra ele de boca cheia e meio interrogativo e com a boca entupida de empada respondi:
_ Não, obrigado!

O rosto dele desmanchou-se e pensei, deveria ter aceito a empada, acho que ele não sabe quanto me deve e pra não ficar sem jeito me ofereceu uma empada como maneira de desculpar-se. Até que ele insistiu:

_ Tem certeza?

Comecei a me enfezar e lhe fiz que não com a cabeça cheia de empada.

E então ele disse:

_ É que não tenho troco.

Foi ai que percebi que ele tentava se redimir perante o cliente guloso e insatisfeito que era eu. De repente ele fez uma cara de quem pede desculpas e resolvi aceitar a empada.
_ Então me vê mais uma vai!

Ele me serviu e me disse:

_ Obrigado moço, é que essas foram as primeiras empadas que vendo hoje.

Aquilo me incomodou um bocado, fingi lembrar de um primo faminto que me esperava em casa e lhe pedi mais três empadas e lhe dei mais dois reais, mas dessa vez não esperei pelo troco, peguei minhas empadas e fui embora.

Ao chegar em casa imaginava o ingênuo sorriso que o menino teria ao perceber que ganhara cinqüenta centavos de caixinha, isso se ele percebesse e essa possibilidade me entristeceu, e para afogar minhas magoas comi as outras três empadas e fui ver o reprise da novela.

Um comentário:

Anônimo disse...

a simplicidade é uma empada que engolimos seca !