O sinal põe-se vermelho e o sangue jorra pelo cruzamento de vias e antes que a luz verde acenda-se uma multidão já se aglomera entre os corpos dos carros adormecidos, lá do fundo da fileira de carros já ouvem-se buzinas irritadas.
Um dos motoristas dos carros das fileiras mais distantes do acontecimento sai curioso de seu veículo para ter a confirmação visual do ocorrido, e as buzinas continuam, são as trombetas anunciando que naquele fim de tarde mais um estranho extraviava-se da continuidade da vida, teria passado despercebido não fosse o engarrafamento causado pelo corpo em meio as ferragens.
O motorista curioso ergue-se nas pontas dos pés para ver o corpo em meio a multidão chocada, alguém na multidão pede pra que abram espaço que não mexam em nada, que alguém acionou uma autoridade responsável e pede que todos dispersem, mas o corpo fechando o cruzamento é o álibi ideal para que cada um continue ali estático apreciando a ultraintimidade do corpo.
Até um curioso cachorro vela o corpo acidentado, mas com olhos doces e humanos, em um dos carros a mãe tenta distrair a filha lhe contando histórias e sentindo-se desumana por estar mais preocupada com a integridade da filha do que com a pobre vítima, mas isso não importa.
Sentado na calçada o motorista do ônibus envolvido no acidente treme sentindo-se responsável pela calamidade, enquanto os passageiros imaginam-se se estivessem um ônibus atrás ou um ônibus a frente da desgraça, tentam consolar o motorista dizendo que o sinal vermelho lhe tirava o peso da consciência.
Um deles dizia que a culpa era do motoqueiro que cruzara o sinal vermelho e que ele não sentisse-se culpado. O motorista fazia que sim com a cabeça, mas num completo estado de afasia, enquanto a multidão começava a crescer.
Dentro de minutos as buzinas entraram em luto e as vias estagnaram-se completamente, era impossível o fluxo do sangue.
Era impossível a retirada do corpo e todos ficaram lá a espera de algo, como se o corpo pudesse ressuscitar , com as filas de carros crescendo era também impossível que ambulância que se anunciava desde longe pelas sirenes conseguisse ajuntar-se ao grupo e higienizar as vias e o transito.
Enquanto isso todos sentiam-se responsáveis pelo corpo, a noite começava a ofuscar o sol e algumas pessoas voltavam-se para seus carros, de vez em quando um retardatário ou outro juntava-se ao fim das fileiras e buzinava irritado, até descobrir o desastre e silenciava sua buzina de maneira vergonhosa.
Após algumas horas a multidão mudava de rostos, os menos curiosos passavam ao longe perguntando sobre o ocorrido e com ar de estranhos pesares faziam o sinal da cruz sobre o peito e seguiam com uma fração da culpa.
O transito era cada vez maior, as autoridades já articulavam outras vias entre a cidade para evitar novos carros na via acidentada, quase ao fim da noite o corpo foi levado e todos seguiram, nessa noite não houve jantar, os maridos requentaram seus pratos nos microondas, os solteiros alimentavam-se do que fosse mais rápido e pratico e todos foram dormir tranquilamente.
No dia seguinte o transito estava normalizado, mas o motoqueiro passava a existir.
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