Estava em uma loja, não, na verdade era em um mercadinho, desses deficientes que nunca encontramos nada do que queremos, e o vendedor parece ter se esquecido no tempo. Comprei uma caixa de cerveja, não preciso ir a um boteco especificamente ruim para me sentir melhor, avistei um pacote de café e a noite estaria completa.
Passei pela múmia da caixa registradora e me dirigi para casa, não acendi um cigarro, parei de fumar, a nicotina parece ser o combustível de todos esses personagens existencialmente conflitantes, como se esse vicio representasse qualquer tipo de fuga, bom para os personagens, sim, só não sei como servem de fuga para os escritores que os criam.
Ao chegar a casa, coloco a caixa de cerveja sobre a mesa e com os dedos perfuro o plástico de cada vão entre uma lata e outra, na última fileira da esquerda eu termino por fim de rasgar o plástico por completo. Coloco todas as latas uma por uma no congelador, junto com os restos de carne esquecidas, feijão sem tempero, um resto de sorvete e uma garrafa de vodka do ano retrasado. Particularmente não gosto de vodka, mas as vezes me falta cerveja e o jeito é improvisar na mistura de vodka com algo.
Enquanto a cerveja gela resolvo ler um pouco, mas não consigo.
O que acontece com esses novos escritores, pretensiosos demais, personagens engajados, fumantes, alcoólatras, aliás, só se embriagam nos guetos de Paris, ou de qualquer luxo europeu, eu preferiria o bar do Tonhão.
Acho que têm lido muitos romances europeus, que aliás, são muito bons, falar nisso, os melhores são os engajados. De fato.
Coexistentes com as crises de “seu” tempo, libertários, nacionalistas, enfim, com identidade. Estou sendo antropofágico demais. Tá, castrador também.
Recompus-me e voltei a reler, uma moça, sem descrição, foda-se, sempre as imagino bonitas. Solitária em sua casa, interessante, com crises existenciais, clichê? Continuemos, bem, angustiada, solteira, aliás, enfaticamente encalhada, para distrair-se tenta encontrar uma fuga em alguns filmes “cassete”, apesar da era digital DVD é uma mídia esteticamente não poética, acho que ela também nem deve ter um email. Para distrair-se Godard, não hoje não, já sei, que tal Glauber Rocha! Acho que ela nunca ouviu falar em desenhos animados.
Porra! Se ela soubesse como são bons! Não contive-me e pulei para o próximo conto, o anterior estava enfadonho demais, preferia quando os personagens eram misantropos de tudo. Essas angustias enlatadas me dão nos nervos. Acho que a cerveja deve estar no ponto, mas nesse calor tanto faz, abro uma assim mesmo, apenas fresquinha.
Retorno à leitura, uma moça, mais uma, espero que essa arrume um caralhão pra se divertir!
Andando sob a chuva nas ruas de Barcelona, encontra uma cafeteria, a Europa deve ser uma gigante xícara de café. Cafeteria, blá blá blá, pulei para o próximo.
De uma maneira engraçada, comecei a ler todos só para ver até onde iriam, já eram quase um estereótipo. Menina carente, com crises existenciais que por mais engraçado que pareça, nunca são viscerais o suficiente para que ela sofra realmente e pitadas de lirismo sintético.
Até que de repente algo que me agrada, nada de jovens infelizes ou de engajamentos imaturos, nada de burgueses revolucionários debatendo política em cafeterias Parisienses, mas sim uma senhora em busca de um amor. Um lindo tema, adoro ler sobre as melancolias da nova terceira idade. Fico um pouco feliz.
Abro mais uma cerveja, que desta vez está super gelada.
Retorno mais uma vez à leitura, jovens, encalhadas, semi traumatizadas e blá blá blá, o que se passa com esses novos escritores.
Em resposta resolvo escrever, faz tanto tempo que não produzo nada. Mas nada sai, agora lembro-me o porque havia deixado essa vida de escritorzinho, era pela morte dos cigarros alivia-dores, e o pior que nem era dos ilícitos. Pelo fim do lirismo sintético, personagens esteriotipados, os cenários regados a jazz, a xícara de café que é a Europa e a falta de causa dos engajados literários.
Desisti, peguei minha lata de cerveja, dei uma leve coçada na bunda e fui ver TV, que aliás, também era uma merda. Desliguei, deitei-me no chão da cozinha que era forrado de piso, que refrescou meu corpo por completo e tomei mais uma dezena de cervejas.
Até que a cerveja acabasse, afinal não sou um personagem moderno.
6 comentários:
Os textos que vc cita são meus. Não é minha pretenção ser uma engajada literária. Bom saber sua opnião.
jovens escritores sartreanos poxa!
Mesmo não se dizendo personagem moderno é esteriotipado. Fragmentos de alguns escritores como o Buck, que ficou bem claro.
Quando o esteriótipo que se segue e as mulheres pelas quais o personagem se sente atraido dão no saco ele tenta desconstruí-los, recalca-los talvez caberia também. Já vi isso antes.
Não me leve a mal. Mais é que até isso já deu no saco também.
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