O alho triturado dourava na panela quando a batucada começou, porque do alho eu não sei, talvez fosse como se quisesse exorcizar qualquer coisa ruim que estivesse comigo. O batuque gritava em meio a roda, as mulheres dançavam com todo seu esplendor e os homens batiam palmas e remexiam as pernas timidamente.
A noite já esquecera-se da lucidez do sol, aos cantos pessoas falavam com deus e em diversas maneiras, até mesmo aqueles que nem possuíam um.
A loucura era já uma entidade boa e libertadora, as latas se abriam com dedos calejados e a cerveja descia com a refrescante fuga do calor nos corpos amontoados e atentos a toada.
A roda era o núcleo da vida, o coração, que pulsava com seus tambores bombeando uma estranha vitalidade, e o suor escorria pelos rostos cansados e felizes. A cerveja transpirava em minha mão, percorrendo todo o corpo da lata e mesclando-se aos meus líquidos que me abandonavam a cada instante a cada respirar.
Eu era invadido pelo calor e a tímida vontade de me jogar à roda me libertando por completo, inclusive de meu próprio pudor.
O galpão rústico e improvisado expandia-se de maneira mística como se a cada passada o mundo se dilatasse, dilatava-se por conta do calor, talvez aquilo fosse a vida acontecendo na sua mais ridícula forma de viver e simplesmente isso.
Nas paredes gravuras e desenhos obscenos que figuravam toda a liberdade que se impunha com fé irreal, todos os pintos e vaginas sem mistérios à cultuação de toda aquela essência pura e animal, que disfarçamos em banheiros nulos e privadas higienicamente hidrocloretadas .
E também ícones esquizofrênicos em meio a frases impactantes e a escassa luz que incorpora o lindo ritual de purificação, o calor era tão grande que achei que pelo suor me sairiam as impurezas. O galpão era formado por dois grandes cômodos um maior repartido com algumas divisórias de escape e o outro divido em mais uma parte que dava para uma pequena cozinha aos fundos.
Na pequena cozinha a cerveja gelava banhada em gelo no ventre de caixas improvisadas e na pia suja cascas e pedaços de frutas faziam o mosaico que registrava o trabalho na confecção das bebidas mais fortes, pinga com frutas e batidas de amor.
Cambaleando me colocava nas possibilidades de redenção, do que eu não sabia e ainda não sei, havia grupos debatendo questões políticas, e essência de deus, a essência da essência e questionando até o próprio questionamento com retóricas embriagadas.
Foi quando estava a ponto de algum tipo de sintética sublimação que os tambores cessaram.
Do centro da roda ela emergiu do cimento batido, linda e transcendental, a saia amarrada na cintura e caída sobre as finas pernas, uma camisa de algodão sem as mangas que realçava seu corpo mirrado e dançante, a bolsa cruzando o colo despendia-se próximo ao ventre, e que com coreografada sutileza ela recolocava as alças sobre o ombro nu e ossudo.
E sorria, com a expressão de que já não era mais mulher, e sem saber ainda o era. Divina enunciava o menu da noite, as sugestões de passos que disfarçava com a saia que era orientada pelos quadris e gentis puxões das leves e firmes mãos sem tintura, sem esmaltes.
Com as unhas na mais bela e pura cor de simples unhas, e na coloração não de criança ingênua, mas de mulher segura com sua meiguice.
E assim ela girava registrando tudo com seus olhos neutros e profundos, rasgados de incontáveis transformações, e nos olhos uma marca estranha e oriental,de bruxaria fugida da inquisição, talvez a milésima encarnação de Cleópatra ou a caixa de pandora lacrada entre os cílios mortais.
Fui sugado pelo seu magnetismo e me juntei as camadas do coração selvagem da dança. Com um sorriso inocente e uma malicia contida ela hipnotizava a multidão e cantava as regras do rito.
Um casal por vez ela dizia e puxava um ingênuo rapaz da camada interior do círculo e entre passos o rodeava o envenenando com os olhos sutis, com a mão em seu ombro e ainda sorrindo para todos dizia, homens dêem um tapinha no ombro do parceiro e o tirem da roda e nesse instante puxando um outro guri de rosto atrevido o manipulava na retirada do ingênuo rapaz que ainda a olhava vazio.
Já as mulheres, acrescentou, se retira na umbigada disse com todo orgulho e ênfase de mulher atrevida, e com as delicadas mãos puxou agora uma linda mulher e casou seu umbigo ao dela, os dois ventre vazios se completando. E assim deixou a roda deixando a linda mulher aos encantos do guri que agora tinha o rosto mais atrevido ainda.
E saiu da roda desnudando-se da magia, caminhava tranquilamente entre os olhos que já voltavam-se atentos para a roda de novo.
Distribuindo sorrisos ela passava tomando um gole aqui, dando uma pitada ali e desapareceu na cozinha dos fundos. Em pouco tempo retornou com um saco nas mãos e uma lata de cerveja, sentou-se ao lado dos fortes homens que davam vida aos tambores e serena começou a beber sua cerveja.
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